Sempre
que posso, utilizo as histórias para facilitar
o entendimento de questões pessoais, pois elas
têm o poder de nos transportar para a situação
narrada e, assim, nos oferecer a oportunidade de analisar
novos ângulos da questão, com a neutralidade
necessária para escolhas mais sábias.
Quer um exemplo? Usarei uma história antiga, apresentada
num dos filmes de Charles Chaplin e que representa claramente
um assunto de difícil explicação:
certos critérios de massificação
que nos foram impingidos pela educação para
nos tornar todos iguais, regulares, compactados, como
se fôssemos um bloco de vidro, brilhante e sem arestas.
Embora traga esta metáfora na memória por
décadas, posto que me identifiquei com o tema,
já não me lembro o autor da sábia
analogia. No aludido filme, Charles Chaplin se prepara
para viajar. Com jeito espontâneo e brincalhão,
ele vai jogando sobre uma mala de couro, aberta em cima
de sua cama, blusas, camisas e calças, ao acaso
e de uma maneira desorganizada.
Imagine a cena: a cada rodopiada, uma peça voa
pelo quarto e cai dentro da mala, desajeitadamente. Ao
final da tarefa, quando Chaplin fecha a mala, percebe
que as roupas ficaram meio dentro e meio fora, mangas
de camisa, pernas de calça, escapam por todos os
lados. Para resolver a questão, ele tranca a mala
e com uma tesoura corta toda a roupa excedente. A mala
fica um retângulo perfeito, linda e toda certinha...
mas tudo o que ficou lá dentro, ficou aleijado...
A metáfora da mala perfeita por fora e aleijada
por dentro, lembra alguma coisa para você?
Quantas e quantas vezes fomos obrigados a assumir um comportamento
que não condizia com a nossa intenção,
a deixar subir aos lábios um sorriso amarelo, sob
medida para a ocasião, em disfarce aos verdadeiros
sentimentos que apertavam o peito?
Só na infância? Ou foi lá que aprendemos
que a meta era ser igual, um sujeito normal e compactado,
não importando o que se agitava por dentro? “Seu
irmão passou de ano, sua amiguinha está
sempre limpinha, por que com você nunca dá
certo?”
As malas tinham de ser todas iguais e ninguém se
importava muito com o aleijão que nascia por dentro...
Assim fomos crescendo e, quando ficamos bem grandinhos,
o medo de errar nos tirava o sono... Calamos esse medo
por muitos anos e, quando tínhamos dúvidas
em descobrir nossos verdadeiros desejos, para assim construir
a nossa vida, os adultos ficavam perplexos, pois esperavam
um pouco mais de personalidade...
Crescemos... e crescemos com medo de ser quem realmente
éramos, até que alguma situação
da vida nos forçou a olhar pra dentro e a procurar
por aqueles pedaços de alma que foram se perdendo.
Fisioterapia de sentimentos que não se desenvolveram
por falta de uso...
Alguns desistiram, outros tiveram mais coragem. O quadro
é um pouco melancólico, mas, verdadeiro!
Por esta razão temos de olhar para ele... precisamos
sair em busca de nós mesmos e de forças
para nos salvar...
Temos a opção de divergir, de nos socorrer
e de buscar a cura. A luz da própria sabedoria,
que subjaz no coração daquele que acredita
na verdade e tem coragem de procurá-la, um dia
emerge e ilumina a vida. Graças a Deus!!!
Pessoas sempre certinhas quase sempre são infelizes.
Pessoas que se rebelam, que têm coragem de errar
e de sair do comportamento massificado, modificam o próprio
destino e o destino do mundo. Somos todos imperfeitos,
anormais e, felizmente, com uma vontade ferrenha de viver
melhor!
Precisamos uns dos outros. Cada olhar de compaixão
e amizade pode ajudar a criar um território de
paz para que nós próprios possamos nos albergar
com mais ternura, e, juntos, construir um lugar mais humano
e acolhedor para nossos filhos.
Somos elos de uma corrente cósmica, feita de luz
e de fé. Nossas diferenças podem ser complementares
e afins, podem se unir em harmonia e formar o corpo de
luz do planeta.
É questão de escolha: nossa missão
é buscar essa luz dentro de nós e expressá-la
com consciência e respeito pela sua singularidade.
E compartilhar!
Fica aqui um convite... |